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Lembro até hoje de uma palestra do TED de uma pesquisadora indiana que falava sobre a escolha, e sobre como a própria ideia de escolha é culturalmente determinada.

Apesar do bode que algumas pessoas expressam com essa instituição, o TED me alimentou por, vai, mais de cinco, quase dez anos; eu acho realmente que tem umas palestras muito interessantes. Se é só um bando de charlatães com fórmulas prontas, cabe a cada um decidir de seu próprio julgamento. Em geral, os vídeos a que assisto trazem qualquer coisa de valiosa, nem que seja uma semente de reflexão em longos vinte minutos. E pra mim já vale. Pessoalmente, acho que há uma bela mise-en-scène no desprezo a muitas coisas que se difundiram demais, aquele afetada indiferença tão conhecida de indies e hipsters, o desdém de quem quer parecer moderno, avançado, inteligente, cosmopolita, antenado. É irritante. E a pessoa, bem, fica vítima de seu próprio mecanismo, incapaz de aproveitar em profundidade qualquer experiência que seu senso crítico indique como mainstream.

O episódio em questão, que relatou a pesquisadora, foi um experimento que ela e seu grupo fizeram com alguns voluntários. Pela boa educação, antes de propriamente começar o processo, ofereceram uma bebida a seus objetos de estudo, e a resposta de um deles os desconcertou. Diante das seis ou sete marcas de refrigerantes, o rapaz disse: Mas não são várias bebidas, é uma só.

O interessante é que aquilo que todos os pesquisadores pensavam ser uma escolha, entre seis ou sete marcas de refrigerantes, não era visto como tal por um pesquisado; para ele, refrigerante era tudo a mesma coisa. E essa mudança de enfoque é muito reveladora do nosso viés cultural, nós, submetidos desde o nascimento a propagandas de refrigerantes dos mais variados tipos, nós, que aprendemos a distinguir as sutis diferenças entre teores de acidez, níveis de gaseificação, concentrações de xarope… Para quem não é submetido a essa gaiola ideológica, refrigerante é tudo a mesma porcaria, e não há diferença prática entre uma marca ou outra. Não há escolha, se todas as opções são mais do mesmo.

Por que pensei isso? Tentei ouvir uma playlist do Spotify nessa manhã de domingo. Laidback acoustic. Que mesmice horrorosa. E as outras não seriam muito diferentes. O grosso da produção cultural é isso: mais do mesmo. Vale para os filmes sem renome do Netflix; para o geral dos programas de televisão; para raps, peças de teatro, livros, qualquer objeto cultural que não tenha uma mínima reflexão por trás. É uma padronização disseminada… E pior, muitas vezes sem que os próprios agentes se deem conta disso. Porque da massa não dá pra esperar muita coisa. Agora dos artistas… Fica um beco sem saída.

Sobre a atenção na educação

Acabo de ler uma entrevista com um especialista em neuroeducação, disciplina que aplica a neurociência à educação e que surgiu “para ancorar em algo sólido o que até agora são apenas opiniões”.

Um primeiro aparte é o absurdo dessa ideia. Desconsidera as décadas de pensamento crítico sobre a educação etiquetando-as como “apenas opiniões”. Os professores, nesse discurso, são meros autômatos aplicadores de regras, incapazes de reflexão. Pior: suas reflexões não são válidas, porque eles não dominam o discurso científico. Não têm por trás um grande laboratório ou universidade-empresa, com um superequipamento capaz de ler os impulsos eletromagnéticos de mil cérebros, tampouco são versados na insondável neurociência; logo, qualquer coisa que falem, não obstante décadas de experiência de ensino, são “apenas opiniões”.

Ainda no tema do discurso competente, o doutor em neurociência é rotulado “especialista em neuroeducação”, assunto pelo qual começou a interessar-se em 2010, vindo a publicar três anos depois o best-seller Neuroeducación: solo se puede aprender aquello que se ama. Aceitar que três anos bastam para virar especialista em algum assunto, por mais próximo que ele seja de sua área de estudo, revela no mínimo um uso pouco confiável desse título. Mas é claro que pouco importa esse uso – na verdade, o importante é o predicado especialista, que magicamente confere autoridade.

Um dos grandes achados que a neuroeducação fez é que a criança tem mais facilidade de aprender a ler após os 6 anos. Ou melhor, que “os circuitos neurais que codificam para transformar de grafema a fonema, o que você lê e o que você diz, não fazem conexões sinápticas antes dos seis anos”. Tudo a mesma porcaria, apenas travestida com linguagem científica. E exercício maior do que o de linguagem é o de mudança do objeto de estudo: não estudamos a criança, estudamos o cérebro. Totalmente diferente. Inclusive foi por puro acaso que chegaram, quase um século depois, a uma conclusão praticamente idêntica à de Rudolf Steiner, mentor da pedagogia Waldorf, que preconiza a alfabetização apenas a partir dos sete anos. Até porque esse cara não conta; ele era de Humanas, só tinha “meras opiniões”.

Outro grande achado da neuroeducação é que o aluno precisa estar emocionalmente vinculado para aprender. Vejam isso em suas mal traduzidas palavras: “Hoje estamos começando a saber que ninguém pode aprender qualquer coisa se não estiver motivado. É necessário despertar a curiosidade, que é o mecanismo cerebral capaz de detectar a diferença na monotonia diária. Presta-se atenção àquilo que se destaca. (…) Por isso é preciso acender uma emoção no aluno, que é a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de aprendizagem e memória.”

Afora a obviedade ululante dessas conclusões furadas, há uma coisa importante que seu limitado instrumento científico não lhe responde: o aluno tem que estar emocionalmente vinculado a quê? Ah, aí vem a seguir a cagação de regra da ciência. “A atenção deve ser evocada com mecanismos que a psicologia e a neurociência estão começando a desvendar.” E toca a dizer que o professor tem que começar a fazer a aula assim, assado; tem que usar uma frase provocante para despertar a curiosidade, mudar a dinâmica a cada 15 minutos (“elemento disruptor”)… Ou melhor, a cada 10 (e sobrevêm mais pérolas): “Mais vale assistir 50 aulas de 10 minutos do que 10 aulas de 50 minutos”.

A restrita visão científica só lhe permite enxergar que o vínculo emocional deve ser com o assunto ensinado. E aí toca a passar vídeos megaproduzidos, piadinhas e músicas com elementos químicos ou nomes históricos. O êxito dessa estratégia é limitadíssimo, assim como o enfoque neurocientífico.

O vínculo emocional com os pais é muito mais profundo. Se os pais de uma criança lhe incutem a importância do estudo, da escola e do professor, tem-se muito mais chance de que a criança tenha uma ligação afetiva com estes. O vínculo emocional com a escola, com a instituição mesma, também é muito importante. Criar um ambiente lúdico para as crianças, um ambiente não-opressor para adolescentes, e manter uma reputação de instituição que respeita o ensino, a ciência, e que não mede esforços para auxiliar o estudante a se desenvolver, também me parece mais importante do que trocar de assunto a cada dez minutos. Por fim, o vínculo emocional com o professor é totalmente descartado pelo pesquisador espanhol, e ao meu ver é o mais importante. Sem um professor que se envolva com os alunos, que demonstre preocupação com que eles aprendam, que mostre que se importa verdadeiramente com cada um deles, o ensino fica oco. (Claro, isso vale para a educação de crianças e adolescentes.)

Mas essa grande conclusão da neurociência nada tem a ver com Paulo Freire dizendo há mais de 50 anos que educação é um ato de amor. Nada tem a ver com todos os seres humanos da Terra lembrarem que gostavam muito de alguma matéria na escola mais por causa do professor do que pelo próprio assunto.

A crise da educação nada tem a ver com o enfraquecimento da figura do professor.

Nada a ver com a ignominiosa remuneração que recebem os docentes da carreira pública.

Nada a ver com pais confrontando professores que não lhes agradam e a diretoria, por sua vez, desautorizando-os publicamente.

Nada a ver com a sobrecarga de trabalho que impede que os professores preparem, customizem e personalizem suas aulas para cada turma.

Nada a ver com aulas para 50 alunos e a impossibilidade de estabelecer vínculo emocional com eles.

Nada a ver com os alunos de escola pública viverem todos os dias o prédio aos pedaços, os professores vitimados, e saberem que são tratados como lixo pelos governos.

A crise da educação tem a ver com o formato de nossas aulas que não é adequado para os nossos cérebros.

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No alto de tudo, há um divulgador científico, hábil com as palavras, entoando mantras como “Devemos redesenhar a forma de ensinar” e “Tudo o que é doloroso tendemos a rejeitar, não queremos, enquanto aquilo que é prazeroso tentamos repetir”. Ele pode ter a melhor das intenções, pode saber que aquilo que diz não é novidade, pode inclusive ser um cara realmente humilde que a mídia manipula e incensa. Mas isso, na verdade, é irrelevante; ele está nesse papel social de portador do discurso competente, mero instrumento ideológico que segue a desautorizar as ciências humanas e a cagar regra a partir do alto da neurociência.

É óbvio que tem seu valor aplicar a neurociência à educação. E é claro também que esses achados valerão bastante para a educação de ponta, escolas de alfas (Admirável Mundo Novo manda abraços), onde não haja problemas estruturais, onde professores tenham boas condições etc. Agora, elevar essa recém-nascida ciência (se é que se pode fazer esse corte semiótico) ao topo das reflexões sobre educação, e principalmente ignorar que a educação como um todo tenha problemas estruturais, sociais, políticos, econômicos, que não chegam nem a ser arranhados pelas propostas desse cara, é uma babaquice sem tamanho.

Aliás, talvez não uma babaquice. É uma filhadaputice. É uma esperteza do sistema ideológico. Principalmente se pensarmos com Marilena que a ideologia é o ocultamento da realidade. Aí é perfeito. Todos os problemas da educação são formatos de aula não adequados aos circuitos cerebrais do homo sapiens. Mas não se preocupem, a grande neuroeducação está vindo para salvar a humanidade. Foda-se o seu salário de merda, professor, foda-se que o governo só fode com você, com as escolas e com a educação; coma essa regra que estamos cagando que tudo dará certo.

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Na real, quando ia começar a escrever esse texto, pretendia dizer algo como “Caralho, que legal, esse cara chegou às mesmas conclusões que eu”. Mas à medida que escrevia, percebi que não passa de um discurso banal que se escora nas ciências médicas – o que evidencia principalmente o valor nulo que a ideologia do capitalismo atual confere às ciências humanas, e também a função ideológica de ocultar a fonte real da miséria da educação. Não à toa, Marilena coloca a cultura popular, ou saber popular, exatamente aquele adquirido pela prática, fora das instâncias sociais de validação do saber como universidades, como forma de resistência ao discurso ideológico – mas nisso não vou me meter agora.

Duas reflexões banais

Nos celulares mais metidos a tecnológicos, quando você coloca um despertador para o dia seguinte, ele te diz quanto tempo falta para tocar (“Este alarme está definido para 16 horas e 12 minutos a partir de agora”), o que transforma imediatamente seu dia atual num grande cronômetro.

Dei-me conta hoje de que a voz do Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, é extremamente parecida com a de Eric Idle, do Monty Python. Aliás, a aparência deles não é tão diferente assim também.

robert_plant-eric_idle

 

Cenas pós-modernas

Tinha que fazer para a escola a resenha do livro de um escritor português morto há tempos. A professora a pedira numa segunda-feira remota, há quase dois meses, e como ainda houvesse alguma punição pela não-entrega, boa parte da sala se meteu a fazer a tarefa – na noite do último domingo, naturalmente.

Ele buscava na internet o nome do livro e seu autor, mas pouco encontrava que lhe servisse: sites de livrarias, sebos e uma série de blogs que dispunham toda a obra para download, mas nada mais diziam; no máximo, replicavam o conteúdo do site da editora. Nos comentários, um bando dizendo o quanto a obra era incrível, inesquecível, formidável, indispensável.

– Resumo, porra, eu só quero um resuminho…

Eram já onze horas. No grupo de whatsapp, os colegas contavam topar com o mesmo impasse.

– Tentei na wikipedia e nada

– Tem resumo no site da livraria, lembrou alguém.

– Resumo n e resenha, desanimou um outro.

– Mais qq e rezenha

– Eh tipo um resumo, so que maior e com comentarios

– Encontrei o pdf do livro inteiro, avisou um desavisado

– Affe todo mundo encontrou isso

– *Ale, sorry, corretor

– Alguem leu o livro\

– Não

– Nem eu

– Parei na pag 2

– continua ai e conta p nois kkkk

– vsf so tem pdf, todo mundo poe o livro mais ninguem leu

– e quem leu num resume

– vamo le agora

– kkk n da negocio chato vsf

A partir daí, mandaram um vídeo, trocaram áudios, e ele largou um pouco o aparelho. Hesitava entre enfeitar o resumo da livraria com qualquer coisa ou ficar sem nota na atividade. Após alguns instantes de busca infrutífera, como a primeira opção desse muito trabalho, decidiu pela segunda.

Pedante

Fiz hoje o título de trabalho mais pedante de minha vida acadêmica, que já vai lá quase em seus dez anos (só de graduação). Tem duas linhas e termo em alemão:

A Aufhebung e seu papel na integração da Introdução à exposição do saber na Fenomenologia do Espírito

Quem diria que um dia eu me meteria a escrever isso. Que viagem. Agora só falta preencher esse trabalho. Mas o fato de eu não estar em desespero com uma tarefa dessas é também outra viagem.

=== atualização de 6 nov. ===

Que interessante é o caminho do conhecimento. O próprio Hegel diz que o caminho para o Absoluto, a verdade, passa necessariamente pelo falso, pelas figuras da consciência que depois se descobrem falsas. À parte uma teleologia que desemboca em um determinismo engessado (todo o caminho dá no fim no ponto exato em que ele, Hegel, está), é muito rico esse pensamento, e se deu comigo nesses poucos dias de trabalho. Primeiramente, descobri um erro no termo em alemão (Aufheben) e corrigi o trabalho inteiro; depois, descobri que ambos podem ser usados, sendo Aufheben o verbo (superar) e Aufhebung o substantivo abstrato (superação). Depois, descobri que meu título falava besteira, ou pelo menos algo não-evidente que em sete páginas um aluno de graduação não tem condições de defender; evidente é o papel da Aufhebung na integração da fenomenologia no sistema da ciência, e não da introdução à exposição do saber fenomenológico. Por último, descobri que, pelo cansaço, eu realmente entrei em desespero com uma tarefa dessas.

Toda forma de conhecimento é um autoconhecimento. Isso já ignoro se Hegel disse, se pensou, se sugeriu, ou se é só mais uma conclusão sem autor notável. Mas muito provavelmente está dentro da obra dele, cifrado em alguma metáfora obscura.

‘Negar a política é fazer política’

ou
Abster-se do voto é fazer política
ou
A covardia dos anuladores elegeu Doria

Vou ser bem direto. Para mim, quem falta à eleição é desprezível; quem anula o voto é covarde; quem anula achando que isso é diferente de votar em branco é burro. E essas três categorias foram muito responsáveis pela eleição do próximo prefeito de São Paulo.

Faltar, votar em branco ou anular têm o mesmo resultado: voto inválido. Em São Paulo, somando as ausências (1,94 milhão), os nulos (788 mil) e brancos (367 mil), obtemos um total de 3,1 milhões de votos inválidos.

Para ser eleito no primeiro turno, um candidato precisa de mais da metade dos votos válidos. Num cenário em que todos votassem em alguém, o vencedor precisaria de 4,4 milhões de votos. Já no cenário atual, Doria precisaria de 2,9 milhões de votos. Conseguiu pouco mais do que isso, e levou de cara. Para ter noção da tragédia, se apenas 191 mil pessoas tivessem votado no diabo que fosse, já teriam forçado um segundo turno.

A questão não é o ressentimento com um playboy grosseiro e neoliberal sendo eleito no lugar de um dos melhores prefeitos que já passaram por aqui. A questão é haver pessoas achando que não ajudaram a elegê-lo. Alô, anuladores! Alô, ausentes! Seu não-voto ajudou a elegê-lo! Não se pode negar a política! Ou, como bem disse Erundina, desmascarando o argumento de Doria, que insistia em dizer que não era político, mas empresário, no debate da última quinta-feira: “Negar a política é fazer política”.

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Mesmo em casos sinistros, como um suposto segundo turno entre Doria e Russomanno, onde o horror tomaria conta de todo nosso ser, anular seria negar a realidade; e negar a realidade é pura imaturidade democrática. Deve-se fuçar no lodaçal e escolher o menos pior – caso se aceite que o resultado das eleições não foi fraudulento e que o pleito democrático ainda é a melhor opção, claro; senão, que se vá para a luta armada e tente instaurar uma ditadura.

Aceitar a realidade, analisá-la e agir da melhor maneira possível. Sem essa frieza, esse distanciamento, esse fígado, não se age bem em política. E como tudo é política, sem essa disposição de espírito, não se vota bem, não se protesta bem, não se dorme-depois-de-uma-melancólica-derrota bem.

Train Talihoo

Prometi-me postar esse texto aqui, que li há muitos anos em algum site (numa dessas viagens internéticas de madrugada), por algum motivo gostei muito e guardei. No entanto, não o consegui encontrar mais por aí.

Train Talihoo

By Mckale Sackville

As a thief, I am exceptionally rare
Every getaway is like an absurd dare

Although the man who flees in a car
Will by no means get very far,
When the fuel in his tank runs low,
I am bolder still, as you will soon come to know

The robber who gets away in a school bus
Will be bothered and distracted by all the fuss
From the kids screaming in the back
But more audacity than this, I do not lack

The one who chooses a bicycle as his ride
Will eventually feel pain in his backside
He will also dread having a flat tire
Nevertheless, my bravery is still higher

Finally, the burglar who uses his feet to run
Will by no means have much fun
He will soon get tired and sore
But believe me, my courage is far more

Among all the robbing misters
I am the greatest of riskers
The snow covers a bike’s marks like a vale
And the rain wipes off and clears a car’s trail
But how to hide the tracks of a train, you ask?
This, my friend, is not so easy a task

For the police, it was me they wanted to catch
So, of course, I had to rebuild the railroads from scratch
But alas, I’ve spent so much to buy the required steel
That there’s absolutely nothing left from the initial steal.

As a thief, I am exceptionally rare by trade.
I never get caught, and I never get paid.